Resta um sopro de vida, nada mais. A inspiração jaz estilhaçada numa esquina qualquer, com o ímpeto acorrentado, as asas cortadas, o sexo castrado… não consegue mais transmutar atrás da felicidade, e agoniza num coma existencial.
Moribunda… fede a chaga, rodeada pelos rabiscos inacabados… e o diagnóstico desta cena?… fastio de comoções… estas se esvaíram pelo labirinto do viver.
Ela chora incrédula… ao saber que sua lápide se resumirá num epitáfio: “morreu assim como viveu…cheia de ilusões”.
Tenta sair da letargia… busca algum fragmento da esperança… mas minguada, apenas os abutres atendem ao seu apelo… atraídos pelo fel das comoções, que surgem decrépitos, imergindo do lixo.
Nesta cena funesta, pressente que os rabiscos inacabados, revoltados, iniciam um bailado apocalíptico… e trazem, como estandarte, o terrorismo islâmico… o suicido da bolsa de valores… todos os desamores… são traços, envoltos em mortálias, disformes de silicone… nus de emoções, famintos de poder … apelativos e corruptos.
Enquanto desenham, na lama, as aflições que correm nas veias… os abutres devoram o resto da bílis, num martírio sem fim… e a inspiração pasma, observa sua sina… o sangue poético, o suor dos riscos, até o escroto dos rabiscos inexistem ali…
Para amenizar sua dor, num ímpeto, se entrega… e trai… primeiro a sim mesmo, e depois ao corpo que transita pela vida… amargurada, quer a vingança do tal “livre arbítrio” , como foi ingênua ao crer que para acontecer, tinha apenas que ser e estar…
E a inspiração ri e chora… numa histeria absurda, sabe que foi corrompida… terá que tolerar os néscios sentimentos humanos… assim, de forma vacilante inicia seu testamento: Eu…
Re…Elizabeth
(Rio de Janeiro/RJ, quinta-feira, 02 de outubro de 2008)
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