Lá está ele, suando em bicas, em pleno verão tropical… carregando o “saco de ilusões”. Apesar do calor, acaba contagiado pelo tal “espírito do Natal”, que se encarna, na anual loucura da troca de presentes.
Sorri, hipnotizado ante a eterna magia dos rostinhos alegres, ou assustados, ou sonolentos, ou perplexos - ou tudo isso junto numa carinha só - que compensa o sacrifício.
O rosto revela a pele curtida de sol, no figurino imposto pelas tradições do hemisfério norte, tão distantes da sua realidade e da brasileira.
Durante o tempo que esta cercado pelas crianças, que numa fila enorme, aguardam o momento de sentar em seu colo, e quase todos sorridentes, balbuciarem os pedidos fundados na eterna esperança dos milagres de Natal materializáveis por um Papai Noel onipotente… devaneia:
“Ah, como gostaria de ganhar um presente! Sim, porque Papai Noel também deseja presentes. Seria uma benção: uma carteira assinada, uma casa, contas pagas em dia, quem sabe um carrinho…até cuecas seriam bem vinda… Poxa, como gostaria de ganhar um presente”!
Permanece no meio do shopping, onde as pessoas correm, esbaforidas, e como todo bom brasileiro deixando as compras para última hora, tentando conseguir comprar o presente prometido, pagando o necessário tributo à sociedade de consumo.
Segue as horas… com o saco lotado de presentes fictícios contidos em caixas vazias. Um sorriso aqui, uma carícia numa cabecinha acolá, um “Ho! ho!” proferido mais adiante…
Horas depois, as luzes se apagam…e um Papai Noel extenuado, segue em passos apressados, apesar da roupa e do calor…contando os minutos até o ponto do ônibus onde vai descer… os olhinhos brilhantes no rosto exausto e marcados pela vida sofrida… algum tempo depois, o coração dispara quando desce do ônibus e vê o portãozinho enferrujado…o umbral de seu lar, onde sua amada o aguarda com o uma menininha no colo!
Quando chega em frente ao portão, o milagre de Natal se realiza… Papai Noel ganha seu desejado presente. Apesar do disfarce; apesar da barba; apesar dos enchimentos, do inusitado da vestimenta, a garotinha pula do colo da mãe, aperta os olhinhos, para enxergar melhor, pensa, sorri, estica os bracinhos e se joga para a frente, dizendo, pela primeira vez:
- Papai!
Lágrimas correm pela face do Papai Noel brasileiro… com seu corpo e sua alma invadidos pelo verdadeiro espírito do Natal.
Re…Elizabeth
(Vila Velha/ES, terça-feira, 20 de dezembro de 2005)
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