Nossa Aquarela
Na transparência noturna, brota a essência da música, tocando o coração, que dispara, fazendo a dança acontecer…e os acordes saem borbulhantes de uma orquídea selvagem… revestidos de plumagem, trazendo a harmonia caótica, existente no leito dos amantes, que fixam residência, nos grilhões mágicos da liberdade.
Esta é a nossa aquarela…pare, e ouça os gritos que ainda ecoam na nossa tela… que surgi num estilete de luz, (re)nascendo num canto torto da vida, sem querer saber o porque da rotina… sobrevivendo, sem parar para refletir o desconforto da cama vazia, que depois do prazer, esfria…onde nem o bolor do gozo fermenta.
Nossos corpos são meros operários de um desejo errante…e debutam o espaço inquietante, entre o real e o imaginário…equilibrando-se, precariamente, na corda bamba e tênue, que separa os paralelos, num insano prazer.
E nesta eternidade…em toques encantados, nos mesclamos…fundindo passado e futuro…num milésimo de tempo, sem contabilizar…e o incomunicável deixa de ser contraditório, vira selo e profusão…numa fusão sem precisar de adptação.
Nos tocamos num bailado repleto de outono, onde germinam sementes numa identidade silenciosa, plainando em conquistas ondulantes, encarcerados no último átomo, que teima em não se misturar a poeira cósmica, e ressurgir Fênix, na penumbra do sol…na chama da lua….fechando as cortinas, deste ato, flamejante.
Nossa aquarela é pincelada pelo devaneio, e a rota que traça o mapa… são mãos algemadas, que tateiam a íris, surfando na onda…. com os pés resvalando a vulva da praia…para mergulhar em crateras oceânicas.
Seguimos exploradores, navegando pelo arrebol dos desejos… espalhando espumas que riscam céus, em ondas gigantescas de segredos.
Escute! Ainda ecoa no cais da alma, os gritos silenciosos que demos nos arrecifes afoitos de nosso mar. Eles imergem das correntes, onde descamam, as comoções inenarráveis.
E assim mergulhamos no horizonte, junto ao crepitar do sol, quando alcança o mar…deixando um rastro na janela do entardecer, nos dissapamos nas rugas da noite…com o vento varrendo os sons diacrónicos, de nossos gritos, dilascerantes de prazer.
Fomos tantos…um só…em vários momentos….fizemos parte da tela do dragão, fumando ópio, num caleidoscópio reverso do tempo, num hospício virtual.
Assino a aquarela… entre lágrimas e sorrisos, com a magia espreitando nas pontas dos dedos, sei que voltarei a rabiscar…por qual mar?… ah não ouso policiar, só quero captar a sintonia da tela branca, aguardando uma nova aquarela, onde pinceladas coloridas irão se entrelaçar….decifrando novos segredos, compartilhando o mesmo espaço…usando a mesma linguagem…sorrindo ante um mundo secreto, profundo e suave, de almas que se envolvem numa paisagem com destino certo, no universo de claros, e incertos, sentimentos.
E saiba que não consigo visualizar outro jeito, de rabiscar, uma longa espera, em um momento mágico!
Re…Elizabeth
(Rio de Janeiro/RJ, domingo, 02 de novembro de 2008)






