
Empurro delicadamente os ossos descarnados, e sacio a alma faminta, que parece uma múmia silenciosa, esquelética, mexendo-se pouco ou nada, e completamente muda… já que o corpo não posso alimentar.
Um rabisco… um repúdio pelo massacre ocasionado pela fome. Creio que por trás de cada vítima, exista um assassino. A fome além de mortífera, também é absurda, um massacre que se produz no meio de uma normalidade glacial.
A fome é ancestral, herdada sem pedidos, para muitos transformados num amargo vício. Um monstro viciado em humanos, sorvendo vorazmente seu sangue, com os dentes rasgando a carne minguada, tendo a morte como única testemunha. E esta (a morte) nunca se revela por inteiro a vítima, mesmo com a vida se distanciando do olhar, como uma incubação que se desfaz lentamente.
Fome…morte…isso é a vida. Ter a fome e não conseguir exterminar a gênese cristalizada de falsos governantes…nem desligar os sistemas geradores deste universo social. Creio que seja mais fácil derrubar uma estrela congelada no cosmos, do quê revolucionar as entranhas de um sistema viciado… que anda, deseja, despreza e mata…em sua habitual rotina.
É simples a equação da vida: quem tem dinheiro come e vive… alguns sobrevivem…mas quem não tem sofre, converte-se em um inválido social… e morre. Ah não venha dizer que é uma fatalidade. Todo aquele que morre de fome é assassinado.
Creio que os governantes tenham horror aos direitos humanos. Eles os temem tanto quanto o diabo da cruz. Pois é evidente que se tomassem ao pé da letra os direitos humanos, acabariam com a ordem absurda e assassina, satisfariam as necessidades vitais, protegendo contra a fome…
Ah resta-me ser irônica e riscar quê comer - conseqüentemente ter fome - foi um erro, um deslize de Deus no dia da criação. Será que Deus errou? Não…não me responda que “ninguém é perfeito“, pois é uma heresia contra a vida.
Neste insano mergulho pela geografia da fome, o choro soa como um baque… mas não o choro da humilhação, da resignação, da tristeza por não ter o que comer…mas o choro explosão, o choro revolta, o choro de indignação e de vergonha porque assim o homem quis…que semelhantes morram de fome!
Re…Elizabeth
(Rio de Janeiro/RJ, sexta-feira, 03 de outubro de 2008)
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