Metamorfose Disforme
A aurora chega vestida de melancolia, fazendo juz ao cenário do amanhecer, tingido de cinza.
Inerte… assim permanece o vulto que namorou a noite, em devaneio… tentando compreender o comportamento de um adeus.
Permanece inerte… pois, por mais que vasculhe as lembranças, só encontra paisagens inóspitas!
É como se o inverno fizesse daquela geografia, sua morada definitiva… matando, a míngua, a alma.
Inerte e sem noção… já nem lembra quanto tempo passado, desde que seus sonhos caíram, assassinados, a seus pés.
Quer sair da letargia, em que se encontra, e alçar vôo novamente… mas o casulo disforme quebra as asas da borboleta, em meio ao caos da metamorfose.
E o acúmulo de destroços ferem…sangrando sentimentos…enquanto o farfalhar de asas se faz presente, tentando salvar momentos raros…que pedem socorro, na calmaria existente no “olho do furacão”… em meio a catástrofe.
Enquanto recolhe os cacos… lembra-se da paisagem primaveril onde lançou a semente ao solo, orando para que a mesma germina-se viril… doce ilusão.
Olha para a janela da alma, onde outrora espiava a vida feliz… para constatar que permanece entraaberta… e ousa espiar pela fresta, para encontrar a hostilidade da paisagem inóspita.
Assim os defeitos da metamorfose vão dominando o ambiente, de maneira alarmante… numa avalanche de destruição. Mesmo assim tenta crer no amor… seu elo de esperança com o mundo… mas crer implica em conhecer, portanto além da compreensão.
Como pode um sentimento ser tão contraditório? Descobre que o amor e o ódio são irmãos siameses, portanto vivem com a mesma intensidade insana, na variável do tempo… tendo apenas uma tênue linha a separá-los.
Ousa espiar novamente pela fresta da janela, tentando visualizar o porto seguro… mas só consegue enxergar fiapos do seu sant’elmo… que um dia tremulou pela paisagem, mapeando através de lentes côr-de-rosa.
Tenta estancar a sangria em quê se esvai o coração… tenta deter as palavras ferinas que querem acusar a indiferença… tenta salvar a dignidade da amante, um dia tão amada… que liberta de pudores, dançava nua, na íris do amado… feliz e ignorando o lado perverso da vida.
Onde está este mundo, onde a paisagem era uma eterna primavera, ixalando paixão?… ecoa o grito silencioso, que morre na garganta.
Pressente a boca da morte lhe namorar… sente seu hálito fétido, e consegue até visualizar as pérolas quebradas, ante o sorriso de escárnio que ganha.
Uma lágrima sepulta o amor moribundo à porta do amanhecer… e na lápide ousa riscar: -”Queria apenas ser amada… ousei demais…não consegui…parti sem saborear o amor…”tal qual nuvem branca, que passa pela vida e não viveu”…
Re…Elizabeth
(Rio de Janeiro/RJ, quarta-feira, 22 de outubro de 2008)
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