Mutação
Não sei se nascerei… mas ouso macular as paredes uterinas com rabiscos… não sei se sou menina ou menino… nem o peso de meus desejos… ou se minha felicidade é virgem ou promíscua.
…nem sei se existirei… não sei direito onde estou… só que o tempo é desordenadamente meu… sendo delicado ou sórdido, inverno e verão.
…serei um mutante vivendo num caleidoscópio?… pode ser que este espaço, pequeno e negro, seja uma caixinha de pandora… e esteja presa por ser uma das mazelas do mundo… serei anjo ou demônio?… estou nascendo ou morrendo?
…ah esta é a minha primeira parede rabiscada… e o meu primeiro orgasmo, onde num manto escarlate, anonimamente, te amei… só não consegui distinguir o som que de minha bôca saiu… foi um grito algoz… ou urrei de prazer?…como saber…
Começo a rabiscar a outra parede enquanto questiono… serei antônimo ou sinônimo… ou num anonimato eterno viverei… continuo sem me ver, sem notícias ter… nem de Deus, ou fulano e beltrano… ninguém… queria sair daqui e descobrir se estou viva ou morta… ou se sou simplesmente a morte em vida.
…termino de rabiscar mais uma parede do cárcere… e mesmo que use todas as letras do alfabeto, não alço vôo…
…acordo?!…nem sei se dormi… ainda tenho onde macular com rabiscos… torno-me plena em cada risco… traçando meu destino com os olhos de um anjo… enquanto a solidão me agasalha … vestindo vida de outra vida… numa eterna noite orfã, sem estrêlas… apenas o gosto da saudade.
…findo o rabisco e não me achei… se rabiscar é um estado de espirito, quem sou? …um ser que veio ao mundo e não viveu… serei apenas uma partícula cósmica em devaneio?
Ah ocorreu-me que talvez seja uma alma, aflita e assustada, tentando desabrochar… e vivo uma eterna mutação!
Re…Elizabeth
(Rio de janeiro/RJ, segunda-feira, 02 de setembro de 2008)
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