Idade do Lobo
Dizem que o homem é o único animal que consome e devora a própria espécie. Não se tem notícia da existência do canibalismo em nossa civilização, nos dias atuais. Mas o canibalismo simbólico, aquele que remete à idéia de destruição do inimigo, no entanto, ainda perdura em larga escala.
Não sei porque criou-se o conceito de idade do lobo, para designar um tempo etário, que começa aos quarenta anos. Penso que seja por ser marcado por uma intensa atividade sexual, geralmente acompanhado de crise existencial, onde os questionamentos são mais profundos sobre o sentido da existência, num processo de reavaliação de valores. É a crise da realização pessoal.
A pergunta que se costuma fazer nesta etapa da vida é: o que realizei de importante até o presente momento? Colocando em cena o medo da morte, que leva à questão: quantos anos de vida terei pela frente? Geralmente existem mudanças, quase sempre radicais na maneira de ver a vida, onde o tempo verbal usado é somente no presente.
Uma outra faceta dessa idade, são os valores mais íntimos e elevados postos à prova. O idealismo do tempo juvenil costuma sofrer um abalo maior em decorrência da perda da inocência da infância, dos devaneios da adolescência e dos sonhos da juventude. Então surge um perigoso divisor, ou se recicla os sonhos e ideais, adaptando-os à realidade, ou nos tornamos lobos, prontos a consumir, devorar, acumular.
Ah… lobos e não hienas, que fique bem claro! Onde a área sexual, em decorrência desse estado de espírito, desequilibra-se, daí os exacerbados e infrenes desejos. E na maioria das vezes, o prazer fica limitado à linha da cintura para baixo… abastarda-se.
O lobo acaba se transformando em uma figura caricata do capitalista selvagem, cruel e desumano, com as poucas e finas camadas de verniz das boas maneiras.
A travessia para a maturidade plena se inicia na idade do lobo e o ritual desta passagem é doloroso, ai tenta-se preservar o bom-senso na pele de cordeiro e nem sempre se consegue vesti-la de acordo.
Re…Elizabeth
(Vila Velha/ES, quinta-feira, 16 de junho de 2005)
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